Exposição sobre aspectos gerais da Primeira República e o Rio de Janeiro como símbolo de civilização.
O início do século XX representou para o Brasil um momento de intensas transformações políticas, sociais e culturais. Com a proclamação da República em 1889 e o fim da escravidão poucos anos antes, as elites dirigentes buscaram redefinir a imagem do país sob o ideal de modernidade e civilização. Nesse contexto, o Rio de Janeiro, então capital federal, tornou-se o espaço simbólico da construção dessa nova identidade nacional. Inspirado nas reformas urbanas de Paris, o governo de Rodrigues Alves, conduzido pelo prefeito Pereira Passos, promoveu uma ampla remodelação da cidade entre 1903 e 1906. As avenidas largas, os prédios imponentes e a política de embelezamento urbano expressavam o desejo de projetar o Brasil como uma nação moderna, alinhada aos padrões europeus. No entanto, essa modernização veio acompanhada de contradições profundas: enquanto o centro da cidade se transformava em vitrine do progresso, a população pobre era expulsa de suas moradias, revelando o caráter excludente do projeto republicano. Assim, compreender a Reforma Pereira Passos é essencial para analisar a Primeira República como uma experiência democrática restrita, marcada por discursos de progresso que ocultavam práticas de segregação e controle social.
O professor inicia a aula apresentando brevemente a transição do Império para a República e as promessas de modernização que marcaram o novo regime. É importante destacar que o Brasil vivia um momento de redefinição de identidade nacional, com a capital federal sendo o laboratório de um projeto de “civilização” inspirado em Paris e Viena e a busca por uma certa negação do passado imperial-colonial, período pré-1889 considerado fortemente atrasado, bárbaro e retrógrado. A República, portanto, deveria aspirar aos mais nobres valores da modernidade científica, seguindo os moldes do positivismo europeu.
Recurso sugerido para projeção no datashow:
- Mapa do Rio de Janeiro anterior à reforma.
- Fotografias do final do século XIX: cortiços, ruas estreitas e condições sanitárias precárias.
- Primeiras imagens do início do governo Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos.
Em um segundo momento da aula, o professor apresenta os principais aspectos da Reforma Urbana de 1903–1906, articulando com temas-chave: higienização, expulsão da população pobre, e o ideal de modernidade. A exposição deve destacar que, sob o lema “Ordem e Progresso”, a República buscava construir uma imagem de nação civilizada, mas isso implicou a remoção de milhares de famílias e o fortalecimento das desigualdades sociais.
Sugestões visuais para o datashow:
- Fotografias da Avenida Central (atual Rio Branco) em construção.
- Cartazes de propaganda da época exaltando o progresso urbano.
- Charges ou gravuras retratando os contrastes entre o “novo” e o “velho” Rio.
Estratégia de condução:
O professor pode propor perguntas reflexivas, como:
- Quais eram os objetivos da reforma urbana?
- Que grupos sociais foram beneficiados e quais foram excluídos?
- Que semelhanças e diferenças existem entre o discurso de modernização de 1903 e o de grandes projetos urbanos atuais?
Poderá ser interessante encerrar a aula retomando os conceitos de modernização excludente e reforma higienista, preparando o terreno para o uso do documentário na aula seguinte. O professor pode registrar no quadro o eixo central do projeto republicano:
“Transformar o espaço urbano para afirmar a imagem de uma nação moderna mesmo que à custa da exclusão social.”
AULA 02 (50 minutos) - Exposição do filme “República - Bota Abaixo” e análise de trechos específicos
A exibição do documentário “República: Bota-Abaixo” oferece aos alunos a oportunidade de visualizar concretamente as transformações que marcaram o início do século XX no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro enquanto capital. A chamada Reforma Pereira Passos, conduzida entre 1903 e 1906, simbolizou o esforço da elite republicana em projetar uma imagem de nação moderna e civilizada, inspirada nos padrões europeus. No entanto, esse projeto de modernização esteve acompanhado por um profundo processo de exclusão e segregação social, pois ao mesmo tempo em que abria largas avenidas e construía monumentos, expulsava trabalhadores e ex-escravizados de suas moradias, empurrando-os para os morros e periferias. O filme permite compreender que o “progresso” proclamado pela República estava restrito a uma parcela privilegiada da população, enquanto a maioria permanecia à margem da cidadania. Dessa forma, o documentário se torna um recurso essencial para discutir com os estudantes as contradições entre o discurso de progresso e a realidade social, revelando que a modernização urbana da Primeira República foi também um instrumento de controle, exclusão e resistência.
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Neste trecho, o documentário apresenta as imagens e relatos que marcaram o início da Reforma Pereira Passos, destacando a tentativa de transformar o Rio de Janeiro em uma capital moderna, higienizada e alinhada ao modelo europeu. O filme contrapõe as imagens do “progresso”, como: grandes avenidas, novas fachadas e obras monumentais à violência simbólica e material das demolições de cortiços e da expulsão de milhares de famílias pobres do centro da cidade. A narração e os depoimentos revelam o caráter excludente da modernização republicana, que se impôs como projeto estético e político das elites urbanas.
TEMA PARA O TRECHO
"O nascimento do Rio moderno"
É possível conceber aqui uma análise destacando como a noção de modernidade, no contexto da Primeira República, estava associada a ideias de “ordem”, “civilização” e “branqueamento social”. É interessante pedir aos alunos que identifiquem no trecho elementos de contraste: o discurso oficial de progresso e as consequências sociais do “bota-abaixo”.
Questões norteadoras podem incluir:
- O que o governo pretendia com a reforma urbana?
- Por que se cogitava a mudança da capital para outra cidade?
- Que mensagem simbólica o “novo Rio de Janeiro” buscava transmitir sobre o Brasil republicano?
- Pesquisar sobre o termo “Belle Epóque” e seu significado político
Essa discussão permite evidenciar que o projeto de modernização da Primeira República, embora se apresentasse como democrático e civilizador, reproduziu estruturas de exclusão herdadas da escravidão e consolidou a segregação socioespacial que marcaria o desenvolvimento urbano do país.
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Nesse momento do filme, a narrativa se volta para as consequências diretas do “bota-abaixo” sobre a população. As imagens e depoimentos mostram o processo de remoção forçada de trabalhadores, ex-escravizados e famílias de baixa renda dos cortiços e moradias populares demolidos pela prefeitura.
TEMA PARA O TRECHO
“O preço da modernidade”
Esse trecho é ideal para problematizar o conceito de “modernidade excludente” e discutir com os alunos que o projeto republicano brasileiro, embora revestido de discurso democrático, manteve profundas continuidades com a estrutura social do Império — sobretudo no tratamento das classes populares e da população negra. Ao analisar esse segmento, os estudantes são levados a compreender que o “bota-abaixo” não foi apenas uma obra urbana, mas um ato político de construção simbólica da desigualdade.
O documentário evidencia a contradição entre o discurso de “embelezamento e saneamento” e a realidade da exclusão social, já que a reforma não previa alternativas habitacionais para os despejados. Muitos foram empurrados para os morros, originando as primeiras favelas e inaugurando um padrão de segregação urbana que se perpetuaram ao longo do século XX.
O professor pode conduzir a análise a partir da ideia de que a modernização urbana se fez às custas da cidadania, perguntando aos alunos:
- Como o ideal de “civilização” justificava a exclusão de parte da população?
- É possível falar em progresso quando ele não inclui todos os cidadãos?
- Que paralelos podemos traçar entre as remoções do início do século XX e as remoções urbanas de hoje?
- É possível dizer que a questão racial influencia no projeto civilizatório da República de que forma?