Plano de Aula

A PRIMEIRA REPÚBLICA: ASPECTOS DE UMA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DEMOCRÁTICA BRASILEIRA

República – Bota Abaixo | Documentário | De Beca Furtado | 2023 | 26 min | RJ
01/04/2026
Ensino Médio, Ensino Fundamental - Anos Finais
Ciências Humanas
GABRIEL FEITOSA GARCIA
Professor recomenda



O estudo da Primeira República é essencial para compreender o processo de formação da sociedade brasileira contemporânea, marcada por contradições entre o discurso de modernização e as permanências de estruturas excludentes. Nesse contexto, o documentário “República: Bota-Abaixo” oferece uma oportunidade única de explorar, de forma crítica e visual, as transformações urbanas e sociais do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, especialmente as reformas conduzidas por Pereira Passos, que buscaram modernizar a capital federal à semelhança dos modelos europeus. A proposta de “civilizar” a cidade, com o alargamento de avenidas e a demolição de cortiços, reflete um projeto de nação que pretendia apagar as marcas da escravidão e projetar uma imagem de progresso e ordem, mas que, na prática, resultou em processos de exclusão, segregação e resistência popular.


Trabalhar esse tema por meio do cinema documental possibilita um diálogo interdisciplinar e sensível entre História, Geografia, Sociologia e Artes, valorizando o audiovisual como fonte histórica e instrumento de reflexão crítica. O filme permite que os alunos compreendam como os ideais republicanos de “ordem e progresso” se materializaram nas políticas urbanas e nas práticas de controle social, evidenciando que o espaço urbano é também um espaço de disputa simbólica e política. Além disso, o uso do documentário estimula o desenvolvimento da leitura crítica de imagens, narrativas e sons, aproximando os estudantes da metodologia histórica e da análise de fontes múltiplas, uma competência central para o ensino de História no contexto do século XXI.


A abordagem dialoga diretamente com as competências exigidas pelo ENEM, que valoriza a capacidade de interpretar criticamente os processos históricos e suas continuidades no presente. O tema das reformas urbanas, da desigualdade social e dos impactos da modernização é recorrente nas provas, especialmente nas áreas de Ciências Humanas e Linguagens, mas também apresenta boa incidência no escopo das Ciências da Natureza. Ao compreender a Primeira República como um momento de contradições entre o ideal de democracia e a realidade da exclusão, o aluno é levado a refletir sobre as raízes históricas dos desafios urbanos e sociais brasileiros, desenvolvendo as habilidades de análise, argumentação e contextualização que o exame propõe avaliar.


 



EM13CHS101 - Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.
EM13CHS102 - Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos.
EM13CHS104 - Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço.
EM13CHS401 - Identificar e analisar as relações entre sujeitos, grupos, classes sociais e sociedades com culturas distintas diante das transformações técnicas, tecnológicas e informacionais e das novas formas de trabalho ao longo do tempo, em diferentes espaços (urbanos e rurais) e contextos.
EM13CHS502 - Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.

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  • Compreender o processo de modernização urbana do Rio de Janeiro no início do século XX e suas implicações políticas, sociais e econômicas, analisando o “bota-abaixo” como símbolo da tentativa de construir uma nova imagem republicana para o país

  • Analisar as contradições da modernidade republicana, reconhecendo como as reformas urbanas promoveram exclusões sociais e reforçaram desigualdades raciais e de classe herdadas do período escravocrata.

  • Identificar as estratégias de controle e higienização social utilizadas pelo Estado durante as reformas urbanas, relacionando-as a discursos de civilização, progresso e ordem típicos da Primeira República.

  • Relacionar o contexto do “bota-abaixo” com movimentos de resistência popular, como as revoltas urbanas (Revolta da Vacina, greves e movimentos anarquistas), compreendendo o papel dos sujeitos subalternos na construção da história.

  • Desenvolver competências críticas na leitura de fontes audiovisuais, relacionando imagens, depoimentos e narrativas fílmicas com o conteúdo histórico estudado e com os temas transversais cobrados pelo ENEM, como cidadania, urbanização e desigualdade social.



 Exposição sobre aspectos gerais da Primeira República e o Rio de Janeiro como símbolo de civilização.



O início do século XX representou para o Brasil um momento de intensas transformações políticas, sociais e culturais. Com a proclamação da República em 1889 e o fim da escravidão poucos anos antes, as elites dirigentes buscaram redefinir a imagem do país sob o ideal de modernidade e civilização. Nesse contexto, o Rio de Janeiro, então capital federal, tornou-se o espaço simbólico da construção dessa nova identidade nacional. Inspirado nas reformas urbanas de Paris, o governo de Rodrigues Alves, conduzido pelo prefeito Pereira Passos, promoveu uma ampla remodelação da cidade entre 1903 e 1906. As avenidas largas, os prédios imponentes e a política de embelezamento urbano expressavam o desejo de projetar o Brasil como uma nação moderna, alinhada aos padrões europeus. No entanto, essa modernização veio acompanhada de contradições profundas: enquanto o centro da cidade se transformava em vitrine do progresso, a população pobre era expulsa de suas moradias, revelando o caráter excludente do projeto republicano. Assim, compreender a Reforma Pereira Passos é essencial para analisar a Primeira República como uma experiência democrática restrita, marcada por discursos de progresso que ocultavam práticas de segregação e controle social.



O professor inicia a aula apresentando brevemente a transição do Império para a República e as promessas de modernização que marcaram o novo regime. É importante destacar que o Brasil vivia um momento de redefinição de identidade nacional, com a capital federal sendo o laboratório de um projeto de “civilização” inspirado em Paris e Viena e a busca por uma certa negação do passado imperial-colonial, período pré-1889 considerado fortemente atrasado, bárbaro e retrógrado. A República, portanto, deveria aspirar aos mais nobres valores da modernidade científica, seguindo os moldes do positivismo europeu.



Recurso sugerido para projeção no datashow:




  • Mapa do Rio de Janeiro anterior à reforma.

     

  • Fotografias do final do século XIX: cortiços, ruas estreitas e condições sanitárias precárias.

     

  • Primeiras imagens do início do governo Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos.



Em um segundo momento da aula, o professor apresenta os principais aspectos da Reforma Urbana de 1903–1906, articulando com temas-chave: higienização, expulsão da população pobre, e o ideal de modernidade. A exposição deve destacar que, sob o lema Ordem e Progresso, a República buscava construir uma imagem de nação civilizada, mas isso implicou a remoção de milhares de famílias e o fortalecimento das desigualdades sociais.



Sugestões visuais para o datashow:




  • Fotografias da Avenida Central (atual Rio Branco) em construção.

     

  • Cartazes de propaganda da época exaltando o progresso urbano.

     

  • Charges ou gravuras retratando os contrastes entre o “novo” e o “velho” Rio.



Estratégia de condução:

O professor pode propor perguntas reflexivas, como:




  • Quais eram os objetivos da reforma urbana?

     

  • Que grupos sociais foram beneficiados e quais foram excluídos?

     

  • Que semelhanças e diferenças existem entre o discurso de modernização de 1903 e o de grandes projetos urbanos atuais?



Poderá ser interessante encerrar a aula retomando os conceitos de modernização excludente e reforma higienista, preparando o terreno para o uso do documentário na aula seguinte. O professor pode registrar no quadro o eixo central do projeto republicano:



“Transformar o espaço urbano para afirmar a imagem de uma nação moderna mesmo que à custa da exclusão social.”



AULA 02 (50 minutos) - Exposição do filme “República - Bota Abaixo” e análise de trechos específicos



A exibição do documentário “República: Bota-Abaixo” oferece aos alunos a oportunidade de visualizar concretamente as transformações que marcaram o início do século XX no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro enquanto capital. A chamada Reforma Pereira Passos, conduzida entre 1903 e 1906, simbolizou o esforço da elite republicana em projetar uma imagem de nação moderna e civilizada, inspirada nos padrões europeus. No entanto, esse projeto de modernização esteve acompanhado por um profundo processo de exclusão e segregação social, pois ao mesmo tempo em que abria largas avenidas e construía monumentos, expulsava trabalhadores e ex-escravizados de suas moradias, empurrando-os para os morros e periferias. O filme permite compreender que o “progresso” proclamado pela República estava restrito a uma parcela privilegiada da população, enquanto a maioria permanecia à margem da cidadania. Dessa forma, o documentário se torna um recurso essencial para discutir com os estudantes as contradições entre o discurso de progresso e a realidade social, revelando que a modernização urbana da Primeira República foi também um instrumento de controle, exclusão e resistência.



Timecode 01: (00:02:40 a 00:05:34)



Neste trecho, o documentário apresenta as imagens e relatos que marcaram o início da Reforma Pereira Passos, destacando a tentativa de transformar o Rio de Janeiro em uma capital moderna, higienizada e alinhada ao modelo europeu. O filme contrapõe as imagens do “progresso”, como: grandes avenidas, novas fachadas e obras monumentais à violência simbólica e material das demolições de cortiços e da expulsão de milhares de famílias pobres do centro da cidade. A narração e os depoimentos revelam o caráter excludente da modernização republicana, que se impôs como projeto estético e político das elites urbanas.



TEMA PARA O TRECHO



"O nascimento do Rio moderno"



É possível conceber aqui uma análise destacando como a noção de modernidade, no contexto da Primeira República, estava associada a ideias de “ordem”, “civilização” e “branqueamento social”. É interessante pedir aos alunos que identifiquem no trecho elementos de contraste: o discurso oficial de progresso e as consequências sociais do “bota-abaixo”. 



Questões norteadoras podem incluir:




  • O que o governo pretendia com a reforma urbana?

  • Por que se cogitava a mudança da capital para outra cidade?

  • Que mensagem simbólica o “novo Rio de Janeiro” buscava transmitir sobre o Brasil republicano?

  • Pesquisar sobre o termo “Belle Epóque” e seu significado político



Essa discussão permite evidenciar que o projeto de modernização da Primeira República, embora se apresentasse como democrático e civilizador, reproduziu estruturas de exclusão herdadas da escravidão e consolidou a segregação socioespacial que marcaria o desenvolvimento urbano do país.



Timecode 02: (00:05:45 a 00:08:24)



Nesse momento do filme, a narrativa se volta para as consequências diretas do “bota-abaixo” sobre a população. As imagens e depoimentos mostram o processo de remoção forçada de trabalhadores, ex-escravizados e famílias de baixa renda dos cortiços e moradias populares demolidos pela prefeitura.



TEMA PARA O TRECHO



“O preço da modernidade”



Esse trecho é ideal para problematizar o conceito de “modernidade excludente” e discutir com os alunos que o projeto republicano brasileiro, embora revestido de discurso democrático, manteve profundas continuidades com a estrutura social do Império — sobretudo no tratamento das classes populares e da população negra. Ao analisar esse segmento, os estudantes são levados a compreender que o “bota-abaixo” não foi apenas uma obra urbana, mas um ato político de construção simbólica da desigualdade.



O documentário evidencia a contradição entre o discurso de “embelezamento e saneamento” e a realidade da exclusão social, já que a reforma não previa alternativas habitacionais para os despejados. Muitos foram empurrados para os morros, originando as primeiras favelas e inaugurando um padrão de segregação urbana que se perpetuaram ao longo do século XX.



O professor pode conduzir a análise a partir da ideia de que a modernização urbana se fez às custas da cidadania, perguntando aos alunos:




  • Como o ideal de “civilização” justificava a exclusão de parte da população?

  • É possível falar em progresso quando ele não inclui todos os cidadãos?

  • Que paralelos podemos traçar entre as remoções do início do século XX e as remoções urbanas de hoje?

  • É possível dizer que a questão racial influencia no projeto civilizatório da República de que forma?



O estudo da Primeira República a partir do documentário “República: Bota-Abaixo” permitiu aos alunos compreender como o projeto republicano brasileiro nasceu permeado por contradições. Ao exibir as imagens do Rio de Janeiro em transformação, o filme revela que o ideal de “ordem e progresso”, lema esse que sintetizava os valores da nova elite dirigente, foi construído sobre as bases de um país ainda profundamente desigual. A modernização urbana, apresentada como símbolo de avanço e civilização, foi também um instrumento de exclusão social, racial e espacial. As reformas conduzidas por Pereira Passos expulsaram milhares de trabalhadores e ex-escravizados de suas moradias, evidenciando que o progresso da Primeira República se edificou sobre a negação da cidadania para grande parte da população. Essa leitura crítica, ancorada em fontes audiovisuais, permitiu aos estudantes enxergar que os espaços urbanos não são neutros: são campos de disputa política e simbólica.



A análise dos trechos selecionados do documentário possibilitou ainda o reconhecimento das vozes silenciadas da história — os sujeitos populares que resistiram às políticas autoritárias do Estado e à imposição de uma modernidade excludente. A contextualização das reformas e das resistências urbanas, como a Revolta da Vacina, levou os alunos a compreenderem que a Primeira República não foi apenas um período de consolidação institucional, mas também de tensão social e de luta por direitos. Ao debater as consequências das reformas, as migrações forçadas e a formação das primeiras favelas, a turma pôde relacionar o passado ao presente, percebendo as raízes históricas das desigualdades que ainda marcam o espaço urbano brasileiro. Desse modo, a experiência fílmica foi além da simples ilustração: transformou-se em ferramenta de leitura crítica da sociedade e de reflexão sobre a permanência dos discursos de progresso e exclusão.



Por fim, o trabalho com questões do ENEM consolidou o aprendizado, aproximando o conteúdo histórico da linguagem e das competências avaliadas pelo exame. Ao resolver e discutir as questões relacionadas aos trechos do filme, os alunos exercitaram habilidades de interpretação de textos, análise de contextos e articulação entre diferentes linguagens, competências centrais das Ciências Humanas na BNCC e no ENEM. Essa integração entre cinema, história e prática avaliativa permitiu que o estudante percebesse que compreender o passado é fundamental para interpretar o presente e agir criticamente no mundo. Assim, o plano de aula cumpriu duplo papel: fortalecer o domínio de conteúdos históricos e formar leitores críticos, capazes de reconhecer que as promessas de modernização e cidadania, tão evidentes na Primeira República, continuam sendo desafios no Brasil contemporâneo.


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